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Um Bóson sem Deus


A partícula de Deus ! Assim o físico Leon Lederman batizou essa partícula que faz parte do modelo padrão que explica a interação das partículas. E como tudo aquilo que se relaciona ao nome de Deus, essa idéia também “pegou”. Mas será que podemos dizer que esta partícula, que aparentemente foi descoberta recentemente em nossos aceleradores de partículas, pode realmente carregar consigo o nome de Deus ? Isso é o que veremos.

Gostaria de começar com uma citação de Marco Aurélio: “Se os deuses deliberam sobre mim e sobre o que deve acontecer comigo, fizeram-no sabiamente. Mas, ainda que não deliberem sobre nada que nos concerne ou não existam, é-me permitido deliberar sobre mim mesmo e procurar o que me é útil”. Talvez essa seja a questão aqui, “procurar o que me é útil” ! Mas, que fique claro, que a utilidade daquilo que procuramos, ao menos neste caso, não tem relação com o que o mundo contemporâneo chama de útil, ou seja, aumentar o seu capital. A existência, agora mais provável, de mais uma das partículas fundamentais não muda em nada a crise econômica em que vivemos ou mesmo a sua necessidade de pagar as contas quando elas vencem. Pelo contrário, a utilidade aqui está exatamente na “inutilidade prática” desta descoberta.

O Humano aparece em várias culturas e em vários momentos de nossa História como aquele que é incompleto, inacabado, que necessita de algo para se tornar realmente um “Ser”. Ou nas palavras de Guimarães Rosa: “Cada criatura é um rascunho a ser retocado sem cessar, até a hora da libertação pelo arcano, além do Lethes, o rio sem memória". Ir além daquilo que se supõe saber, da memória, talvez seja a condição humana aqui neste planeta. E essa condição, daquele que sente falta, tem motivado a nossa espécie a ir cada vez mais fundo na tentativa de compreender da natureza que nos cerca. Isso nos leva do mais longínquo do Universo até o mais profundo da matéria, onde, limitados pela nossa própria condição, encontramos se não a Verdade ao menos pistas daquilo que nos parece ser esta Verdade. Esse ato de busca pelo conhecer é aquilo que nos leva, enquanto caminho, mais próximos não da divindade, que suporia, talvez, o conhecimento total desta mesma Verdade, mas sim de uma “sabedoria possível’ que possa tornar essa nossa curta vida aqui na Terra um pouco mais feliz.

Sim, Feliz, porque longe do que apregoa o mundo moderno que diz que a felicidade está sempre “fora de você”, que está em possuir alguém ou algum bem material da moda, boa parte de nossa filosofia diz que a felicidade está em se tornar plenamente sábio, e possuir a sabedoria é ser “salvo”, pois feliz ! Um sábio, neste sentido, seria aquele que com sua busca, feita pela filosofia, pelas ciências, pela história e pela vida mesma, consegue viver de forma feliz, pois sabe que este mundo, longe de ser ideal, é o possível, e que por isso mesmo devemos aceitar aquilo que não podemos mudar e lutar para transformar aquilo que nos cabe fazê-lo. Somos capazes desta sabedoria ? Talvez não, mas isso não impede que possamos ao menos tentar nos aproximar dela.

E é neste aproximar-se que a descoberta da partícula “Bóson de Higgs” entra. Inútil, como já apresentado acima, mas fundamental para que possamos cada vez mais nos distanciar da crença e nos aproximar da “verdade possível” proposta pela sabedoria. Os deuses, quer existam, estão fora da racionalidade humana, por isso são crenças, mas as partículas fundamentais, longe de representarem o final e uma busca pela verdade, que talvez não passe de mais uma crença, um cientificismo tolo, podem nos ajudar a ser cada vez mais humanos, colocando-nos a caminhar naquilo que fazemos de melhor, que é a busca pela nossa “completude possível”, pela nossa sabedoria, pela nossa liberdade e finalmente, pela nossa felicidade.

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6 comentários :

  1. Realmente o cientista que batizou a particula como "Particula de Deus" foi muito infeliz.

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    1. Isso mostra que nem sempre a "genialidade" libera a pessoa de cometer alguns erros !

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  2. A principio o estudo recebia o titulo de "A Partícula Maldita " . Acho válido o titulo por obviamente gerar uma comoção em volta do assunto .Acredito que esse poderia ser um dos meios de uma possível "quebra de tabus " e uma conciliação admirável e possível entre a crendice religiosa e a beleza da ciência . A descoberta foi então batizada como a "Partícula de Deus " por ser tao difícil defini-la ,e por estar em presente em todos os lugares "assim como" Deus . Admiro a ciência e admiro a religião , essa luta travada entre elas durante tanto tempo é totalmente absurda , talvez um dia a racionalidade humana reconhecida em acontecimentos tao fantásticos como esse, possa enxergar que tudo no mundo em que vivemos é um lego haha só esperando por encaixe :] E talvez a inutilidade dessa descoberta seja apenas o começo para o inicio da Utilidade mutua da mente humana , da racionalidade humana e da percepção de que nós em nossa mediocridade diante do universo somos realmente divinos !

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    1. Mariana,

      Primeiramente gostaria de agradecer sua participação. Esse Blog tem por objetivo incentivar meus alunos a pensarem de forma diferente daquela apresentada pela mídia tradicional, e nesse sentido, a sua contribuição foi de grande valia. Concordo quando você diz que “a inutilidade dessa descoberta seja apenas o começo para o inicio da Utilidade mutua da mente humana, da racionalidade humana e da percepção de que nós em nossa mediocridade diante do universo somos realmente divinos !”. Mas apesar de ser um materialista assumido, não gosto de chamar o conhecimento religioso de uma “crendice”, pois, apesar de ser uma crença em um “idealismo” que não acredito, a forma como essa crença se apresenta, logicamente quando fora do mundo do fanatismo, pode contribuir, e muito, para a compreensão sobre a nossa mediocridade e a nossa divindade perante o Universo. Assim, também, a contribuição é grande quando não caímos na armadilha de considerar a ciência humana como algo mais do que ela é, ciência humana, evitando, assim, o cientificismo que mascara o nosso conhecimento racional/científico com uma Verdade que é difícil de se provar sem cair no erro de mais uma possível “crendice” !

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    2. Sem mais discussões, queiram vocês teístas aceitarem ou não. É definitivo, ninguém, eu disse ninguém pode contestar mais. Tudo o que vivemos começou com uma explosão, o BIG BANG. Ao contrário do que os teístas possam imaginar, um Bóson (partícula infinitamente pequena), com uma massa infinitamente grande, se engasga com tanta energia e explode dando início a tudo o que conhecemos e o que ainda não vamos conhecer nunca. Antes dessa partícula não existia nada, eu disse nada. Não existe o tempo, não existe N A D A, nem DEUS. Caso não entenda o que isso significa, então continue sendo enganado por todos os crentes em Deus.

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  3. "Gosto de imaginar o nada , ele 'e tao cheio de tudo"

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